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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pedaços de você


I.               Olhos
Castanhos-que-ficam-esverdeados-com-o-sol. Descobri uma nova cor, minha preferida agora. E eu gosto de ver eles no escuro só pra lembrar que existe luz, no fim do túnel, na lua, em você, na gente quando eu me vejo aprisionada neles.

II.             Sorriso
Eu descobri a cura de todo o mundo e não dividi com ninguém. É porque essa é única coisa que conserta toda a minha semana: ele abre um pouco a boca e mostra os dentes e até os olhos dele se repuxam e caem um pouquinho.  E aí ele me atravessa, só pra beijar minha boca. E eu suporto o mundo e ensurdeço.

III.         Boca
   E todos os segredos estão ali e ninguém sabe.  E todos os versos e poemas também.

                                                                          IV. Colo
                    Ele me aninha, afastando os medos de um filhote.

                                                V. De corpo inteiro
 Ele é meu. Com a barba que me aranha e a mãos que me seguram. Do ombro à cabeça, das bochechas às pernas. Do avesso, ele me fez inteira, juntando os pedaços dele pra me refazer. Nos encaixar. 

Fonte da imagem: http://migre.me/e7DAB

sábado, 22 de dezembro de 2012

Café

Fonte da imagem: http://migre.me/cuEim

Você tem cheiro de café entrando pela porta do quarto, de mansinho, pela manhã. Forte, intenso.

Parece que invade tudo, cada canto da casa – de mim – e inebria a todos – a mim.

Você me faz ir atrás de você, desse seu cheiro de café.  

Tem o conforto e a preguiça da manhã, a esperança de um novo dia e que hoje pode ser melhor. E também essa vontade de ficar pra sempre na cama, em cima dos lençóis, debaixo das cobertas.  

Você é essa coisa que acorda comigo todo dia e me lembra que eu preciso levantar e viver, cair na rotina, ver o sol. Nem parece tão ruim.

E olha que eu nem gosto de café, toda vez que eu bebo faço careta. Mas quando eu te bebo, eu sorrio. Vai entender. 


domingo, 7 de outubro de 2012

Meu arco-íris


Deitei de noite na cama, teu braço me puxou pra grudar seu abdômen na minha lombar, teu nariz encostado na minha nuca, eu sentia sua respiração reavivar o arrepio do meu corpo, o silêncio do mundo. Na sexta-feira eu bebi amor.

De manhã virei de lado e passei a mão no teu rosto, pra tirar a franja de cima dos teus cílios. As cobertas desarrumadas, você quase atravessado na cama, abriu os olhos verde floresta e sorriu de lado pra mim. No sábado de manhã, me levantei e fui feliz.

Na manhã de domingo tinha cheiro de café, à tarde tinha seu perfume Chanel por todo o sofá. Você sentado nele, eu mergulhada em você. Você cobrindo meu domingo de poemas, eu lendo você. No domingo eu vi o mundo colorido, e descansei.

E na segunda-feira eu acordei, de madrugada, despertada pela lembrança. Na segunda eu me lembrei da sua passagem de arco-íris por aqui. Foi bonito. 

Fonte da imagem: http://migre.me/b1HGg

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Então a gente ri...


Ele beija a ponta do meu nariz, contorna meu rosto com os dedos e toca meus lábios com aquele jeito de você-me-ganhou-garota-sou-todinho-seu.  Acordo do lado dele com resquícios de maquiagem, bem estilo panda com o rímel da noite passada, e ele repete baixinho: - linda, tão linda... - Minha cara é aquela típica que ele vive falando, aquela que é como se eu dissesse “ata, vou fingir que acredito em você.”.  Os olhos dele me olham e brilham.

- Como eu vim parar aqui com você? Quando foi que isso aconteceu?

- Sei lá, acho que a gente bebeu muito a noite passada... Qual é o seu nome mesmo? –Brinco, olhando séria pra ele. Então a gente ri, ri porque nossas risadas combinam, ri dessa coisa patética que inunda o coração, ri desse sentimento que deita e rola na cama junto com a gente. A gente ri do bobo do amor.

Fonte da imagem: http://migre.me/a0mdt

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tudo bem, eu te amo. A gente pode pedir uma pizza.


Sento em cima da bancada da cozinha e o observo fazer o almoço, esse é um dos poucos momentos em que vejo esse cara desastrado ficar mesmo concentrado. Assobiando e jogando sorrisos pra mim, eu só o olho com cara de sapeca desejando ele e ao mesmo tempo duvidando que nada sairá errado com a comida. Parece que ele também está feliz por estarmos ali. O apartamento dele parece estar mais escuro hoje, mas os castanhos olhos dele estão mais iluminados. Parece mesmo que, dessa vez, nada sairá errado. Nem com a comida, nem com a gente. Porque eu posso me ver junto desse homem, juntando histórias, trapos e retratos com ele. Ele me desperta sentimentos terrivelmente inocentes, tipo o amor. Ele me envolve num romance e eu sinto que não morrerei no final e que o nosso para sempre pode acabar, mas depois a gente recomeça de novo.  Não faço declarações para ele, mas ambos sabemos que todas as declarações estão entre a gente.  

E da forma mais livre que nós podemos ser, nós nos prendemos, um no outro, sem querer sair. É estranho, mas é real. E parece que não vai se dissipar como a fumaça que sai da panela onde ele está preparando a comida. 

Cantando Everything – e imitando da pior e mais fofa forma o Michael Bublé – ele se aproxima e eu me sinto dançar quando ele começa a cantar ao pé do meu ouvido.  Me envolvo com o cheiro dele e com o cheiro que sai da panela, mas o dele com certeza é o melhor.  Ele tem cheiro de inverno acolhedor. Me acolhendo. Me aquecendo. 

- Você vai deixar a comida queimar – Digo sorrindo e mordendo o lábio. Ele faz que não com a cabeça e me beija. E Então, o mundo é inteirinho nosso e eu mergulho em amor. Mergulho numa formidável alma, a alma dele. O sabor dele é de doce sem frescuras, aqueles doces simples que a gente nunca deixa de gostar. Ele tem sabor de brigadeiro, eu acho.       
  
- A comida tá queimando – exclamei, me soltando dele após notar o cheiro de queimado, ainda meio abobada depois de ficar por vários minutos envolvida naqueles braços. 

- Tudo bem, eu te amo. A gente pode pedir uma pizza. – Diz ele, colocando na frase três palavras envolventes e declaradoras. Sem saber se sorrio ou finjo não notar o que ele disse eu continuo olhando pros olhos dele, depois pra boca e assim sucessivamente, buscando simples palavras. Daqui a pouco a casa pode pegar fogo e ainda não nos soltamos. 

- É, acho que a gente pode pedir uma pizza. Eu também te amo. – Esquecemos que a maioria das pizzarias não entregam na hora do almoço. Tudo bem, a gente se ama. 

fonte da imagem: http://weheartit.com/

domingo, 22 de abril de 2012

Apego - Por Gabito Nunes

“Ainda não contei de você a ninguém. Acho meio arriscado ou, quem sabe, mera superstição. Eu sei que as pessoas vão me pedir cuidado. Assim me guiei por uma vida toda e foi exatamente isso que hoje me faz uma pessoa contando uma história de amor sem nunca ter protagonizado uma. De um jeito ou de outro, sempre soube que pegar leve era uma forma de me manter todas as minhas metades comigo mesma, até então sem saber pra quê servia isso.
[...]

É cedo pra dizer, ou tarde demais pra fugir. Talvez você seja um cachorro-cínico-egoísta apenas sendo gentil-romântico-atencioso só pra me enganar na sua cama. Mas se não for você, será outro qualquer. Melhor que seja você. É nisso que eu penso enquanto você arreda as teia de aranha que fizeram casa no centro das minhas coxas e na minha emoção. Pelo menos assim esqueço que você pode estar julgando as estrias na minha bunda agora mesmo.
[...]

Outros já estariam vestidos me chamando um táxi. Você não, quer mudar tudo. Fala coisas que aos poucos transformam minhas expectativas em certezas. Eu achava que sabia a tradução da palavra saudade. Aí vai você e muda tudo.
[…]
Num instante você me olha apaixonado e depois se vira pra janela ficando um pouco fora do ar. Nessa hora me belisco pra não saber do porquê, sem esquecer do dia você me falou que nem toda pergunta requer uma resposta. Mas então não fica assim, não precisa dizer nada, só não me deixe faltar aqueles abraços silenciosos pra calar a boca de quem me mandou ter calma contigo. Agora que eu me perdi, só preciso de você me dizendo que amanhã ainda vou te achar no mesmo lugar, se eu procurar. Eu te quero, na medida do impossível.

Pega no meu queixo e diz que não sou só eu que sinto medo aqui. Faça alguma coisa ruim, qualquer coisa que me impeça imediatamente de sentir esse amor absurdo por você. Estou nas suas mãos e isso não é uma metáfora. Porque eu já não sei mais nada. Parece que sou mesmo seu foco de vida, mas também pode ser que você ande apenas distraído do resto do mundo. Ou, vai que você tá mesmo certo, as coisas são assim mesmo, o amor invade pela boca enquanto a gente se olha e fica rindo. “

(Gabito Nunes) 
_________
Me desculpem pela falta de palavras no blog. No entanto, quis dividir estas palavras com vocês.
E se quiserem conferir esse texto e outros, desse autor que me encanta, na íntegra. Clica aqui.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Repintando traços


Não me reconheço no espelho. 

Não sinto mais os olhos de maré alta.   
               
Vejo o coração tão caleidoscópico, em preto e branco.

Vejo a boca cinza, sem o vigor do vermelho apimentado das noites de março.

Mas te enxergo profundamente, aqui...em mim...dando pinceladas multicoloridas nos meus traços.


 fonte da imagem: http://weheartit.com/

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sentindo o porto seguro


De repente ele estava cuidando de mim, sem perceber achei meu porto seguro. Aquele que sempre estava em busca pra me acalmar nas madrugadas que a mente vinha com aquela completa lucidez. Eu não notei quando ele apareceu, não notei todo aquele carinho que estava na minha bandeja faminta, agora farta com tudo que ele tem pra me oferecer.  Eu não notei.  Só percebi quando vi o quanto ele extravasava meus demônios, quando vi ele exorcizando meu inferno ardoroso da alma. Quando vi ele, quando realmente o vi. Agora uma vontade de nadar na calmaria do mar que são os olhos dele, vontade de me afogar e nunca mais sentir o oxigênio fora desses olhos azuis. Vontade de ter certeza que a mão dele sempre vai segurar a minha.

 fonte da imagem: http://weheartit.com/

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tanto faz, tá no coração!


- Ele é um idiota. – Ela quase gritou.

- Mas isso você já sabia. – O amigo disse naturalmente.

E o tempo pareceu dar uma pausa pra ela pensar. Era só isso que ela sabia, né? Que ele era o idiota que ela amava. Mas porque ela amava mesmo? Quem era ele? Tudo que ela parecia conhecer eram pequenos borrões, reflexos da personalidade dele. E a história da vida dele? E as manias? Comidas preferidas? O que ele sonhava em ser quando era pequeno?
Nada. Ela o conhecia, sim. Conhecia o jeito dele abraçar ela, conhecia o jeito tímido que ele olhava pros olhos dela, conhecia muito bem aqueles olhos que a enlouqueciam e o jeito calmo que ele tocava seus ombros quando precisava ir embora.
E como fica o resto? Aquele resto que ela não sabia. Aquele resto que naquele momento pareciam ser a coisa mais importante pra ela. Aquele resto que era o resto do que eles não foram.

- É, isso eu sabia. Isso eu sei.  – A voz dela foi caindo. Enquanto, aqueles traços de interrogações só subiam e se desenhavam por entre a imagem tão nítida e certa dele que ainda permaneciam na sua cabeça.  E isso era certo, isso ela sabia, ele ainda tava lá dentro dela. Do coração dela.


sábado, 22 de outubro de 2011

Dois Planetas, um ponto.

Mais distante que Marte, mais frio que o gelo do ártico e as gotículas da chuva de inverno, escondendo mais coisas dentro de si que um baú de sete chaves. E já era, porque meu foguete não tem mais o mesmo motor pra alcançá-lo, meu fogo quase incendiário não consegue mais emitir nenhuma faísca e minha chave mestra apresenta defeitos. Me vejo apenas, querendo acabar com minhas agonias de ver tudo isso acontecer diante de mim e não conseguir entender o que se passa. Fica tranquila – ele disse pra mim, mas quase não deu pra ouvir aqui da Terra. Eu fiz algo errado? – perguntei quando, na verdade, queria dizer “Me diz o que tá acontecendo, preciso tanto cuidar de você!”. Mas não se ouviu mais nada, a distância dos nossos planetas já havia se expandido demais. Não foi nada, esquece. – Num breve sussurro eu escutei  a voz dele ecoar no espaço. E ao olhar para o céu vi um avião passar. Ao sumir pareceu desenhar um ponto, apenas um. É isso, desliguei o motor, não forcei mais nenhuma faísca e guardei a chave no bolso. Ponto.



sábado, 15 de outubro de 2011

Fantasminhas camaradas?



Sabe as assombrações, os fantasmas que te perturbavam as noites quando você era criança? Chegava a hora de dormir e todo barulho ou imagem no meio do escuro te remetia a um possível fantasma. Você então, se cobria com o cobertor mais pesado, juntava ele por todo o seu corpo, sem deixar nem um espaçozinho sequer mesmo que estivesse o calor mais insuportável do mundo, depois disso cobria o seu rosto pra não ver nada caso seus olhos insistissem em abrir, quase se sufocava ou morria de calor, mas não importava, só não podia ver ou sentir um fantasma por ali. O medo era mais forte. Na noite seguinte o anúncio na TV era de um filme de terror, sua mãe dizia: “É bom você não assistir ou não vai conseguir dormir depois!”. Concordava, porém só da boca pra fora, porque era tão emocionante tudo aquilo que escondido ia assistir. E, mais uma vez, ignorando os avisos, aqueles medos voltavam. Depois de toda aquela proteção contra fantasmas o medo ainda voltava lá e seus olhos enchiam de lágrimas. “Por que eu não ouvi minha mãe?”, se perguntava até cair no sono. O problema que os fantasmas também vinham em pacotinhos chamados ‘pesadelos’, e, desses eram difíceis fugir. Mas no dia seguinte você já acordava corajoso de novo, podendo enfrentar qualquer fantasmas que viessem pela frente, eles não eram páreo para você. Sentia-se a Mulher-Maravilha até passar outro filme na TV e tudo se repetir, só que dessa vez você engolia a vergonha e ia dormir com seus pais. Não era assim?
Você cresceu, os fantasmas não te assustam tanto mais como antes. Mas aí aparecem outros fantasmas, outros monstros pra assombrarem suas noites. E esses são reais, tem nome e sobrenome, vêm em pacotinhos chamados ‘pesadelos’, mas, também vêm em pacotinhos chamados ‘realidade’. Os sons e imagens que eles produzem durante a noite são reais, são chamados de ‘lembrança’. O medo que eles te dão vem do seu coração que não sabe lidar com aquilo. E, mesmo assim, algo dentro de você ainda acha todo esse “filme de terror” tão emocionante como os de quando você era criança, e fica assim, permanente em você por mais que doa, porque no fundo ainda te faz bem, te faz feliz esse medinho, essa emoção. Você ainda foge, porque fantasmas são difíceis de capturar e, a essa altura, depois de tantos fantasmas te rondarem você não tem mais a força de uma super-heroína e muito menos a sabedoria de um Dalai Lama pra conseguir lidar com tudo isso. Mas deixar de assistir o filme também é difícil. Então, decidi continuar a repetir o ritual de quando era criança, se cobre, esconde a cabeça, as lágrimas surgem um pouquinho até tudo isso passar ou você cair no sono. A cama dos pais já não é uma possibilidade, te resta se agarrar um pouco no travesseiro.
 “Não assista esse filme de terror, ele não vai te deixar dormir.”, eu sei, mas o fantasma que aparece nele me faz tão bem, mãe.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Corte da corda

- Ele não é nada seu. 
Com toda sua inocente sinceridade ele disse isso como quem passa manteiga no pão pela manhã.
- Eu sei.
- Então, por que a aflição de ainda querer notícias e de querer saber o que se passa ao redor e dentro dele?
- É que ainda faz falta tudo que ele poderia ser... Tudo que poderíamos ser.  E acho que me preocupo com ele, comigo.
- Isso é carência sua.
Sua sinceridade era muitas vezes grosseira, mas era disso que ela precisava.
- Não, infelizmente não é. Já senti o calor de outros braços e já matei minha sede em outras bocas. E isso permanece. O frio na alma e o calor no coração ainda estão aqui.
- Foi você quem fez a escolha de retirar as reticências. É esse seu jeito impulsivo, impaciente e de querer ter certeza de tudo que estraga as coisas às vezes.
- Sinto raiva de mim também por isso. Você acha que fiz a escolha errada?
- Não, não sinta raiva de você. E você só fez o corte de algo que te afligia, você cortou a corda que machucava seus pulsos e te mantinha presa. O único problema foi que a corda deixou marcas, talvez você tenha deixado que ela se apertasse demais. Marcas não incomodam para sempre, fique tranquila, alguma hora você nem vai mais as notar aí.
- Então por que disse que esse meu jeito estraga tudo?
- Nem sei mais o que digo. É que, assim como você, cansei de ver o seu rímel escorrer pelas suas bochechas junto com esse líquido salgado dos seus olhos. E fico pensando, e se você fosse mais calma e deixasse o destino se encaminhar sem dar a mão pra ele. Mas depois repenso e penso, não sei se isso seria bom.
- Se você não sabe, imagine eu.
- Mas lembre-se: toda atitude vinda do coração, quando não se tem raiva nele, é bem-vinda.

Bateu delicadamente com a ponta do dedo na pontinha do nariz dela, sorriu levemente, piscou os olhos devagar. Todos esses sinais ela já sabia o que significavam: “Vai ficar tudo bem.”





sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Roteiro de um palco imperfeito

Eu tenho um roteiro, assim inteiro;
Escritos nas insônias de agosto, pressuposto;
Tem personagens esquecidos, ou eles que me esqueceram?
As falas não têm vírgulas ou travessões;
Têm reticências e palavras atravessadas, é emergência!
Clemência!
Deixe-me buscar nos meus arquivos as nossas falas;
Aqui está! Acompanhe-me;
 
Não, você está errando! Tenta essa palavra, essa frase
Ah, quase!
O que é isso? Está profanando?
Siga o que eu escrevi, vamos!
Nada de profetizar, pressentir;
Não quero improvisos, já aviso!
Apenas, muitos risos e sorrisos. Eu preciso!
Que tal pularmos pras cenas do próximo capítulo?
Isso, perfeito!

Ei, ei! Espere, não! O final... Desfeito.
Foi desfigurado, inacabado
Quanta falta de profissionalismo,
Devolva-me então, minhas páginas e meus rabiscos,
Vou pôr tudo ao lado dos cacos e destroços desse nosso palco;
Vambora,
sem roteiro, que a aurora não demora.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Não é uma consulta qualquer

Entrou na sala do médico tão de mansinho que parecia quase voar.  Sua respiração era lenta, quase mórbida. Os olhos caídos e inchados.
Sentou lentamente na cadeira, esperou que o médico lhe perguntasse algo, não queria ser a primeira a pronunciar qualquer palavra. Não queria falar. Por ela ficaria calada para sempre, ou melhor, por que todos não se calavam para sempre?

O médico esperou que ela dissesse pelo menos seu nome, em vão.
- Então... Qual é o seu problema? – Pergunta óbvia que ele fazia para todos os pacientes soou tão entediante, quanto a cara da moça que estava a sua frente.
- Dói aqui. E aqui. – Apontou para o coração e para a cabeça.
- E quando isso começou? – Fingia anotar qualquer coisa, no final ia receitar um analgésico mesmo.
- Foi depois de uma viagem que eu fiz. – O liquido que lavava seus olhos há alguns dias estava voltando ao seu trajeto, a começar por aquele nó que ele dá na garganta antes de escorrer pelos olhos.
O médico pareceu se interessar um pouco pelo caso.
- Interessante. Para onde foi essa viagem? – Pela primeira vez olhava realmente para a moça.
- Não sei qual é o nome. Me levaram. Parecia interessante, percebi que era perigoso... Nem cheguei a ficar muito tempo, mas lembro muito bem de quando eu resolvi sair de lá. – Um olhar distante, como se estivesse fora do corpo estava estampado no rosto dela.
Ele estava começando a achar que teria que levá-la para a ala psiquiátrica.  
- E como era esse lugar? Por que você resolveu sair de lá? – Largou a caneta e sentou-se próximo a moça, extremamente interessado.
- Não, não. Dói. Não quero lembrar! – Apoiou sua cabeça entre as pernas.
- Ok, fique calma. Mas pelo menos me diga o motivo que a fez abandonar esse lugar. – Segurou a mão dela.
Afastou suas mãos da dele. Colocou um dos fios que caiam, atrás da orelha. Colocou suas pernas em cima da cadeira junto ao seu corpo, fechou os olhos e continuou.
- Era uma desordem, tudo muito confuso. Sabe aquela bagunça que fica após uma festa, com os pratos sujos, as bexigas murchas pelo chão, tudo fora do lugar que até parece que nunca mais voltará a ser organizado como antes? Aí você fica nervoso com tudo aquilo, a agonia de não dar conta te consome. Até que você percebe que precisa criar coragem e dar um jeito em tudo aquilo, antes que toda aquela desordem se agrave mais. Foi esse o motivo por eu abandoná-lo.

O liquido que havia estacionado em sua garganta, agora invadiu os olhos da moça pra virar uma fonte de coisas sujas a escorrer por entre seus olhos.
- Mas você não organizou, você abandonou. – Ele parecia perceber algo mais profundo vindo de toda aquela história.
- Não! Sair de lá foi uma forma de organizar. Sem mim ali, talvez, a pessoa que cuidasse do lugar conseguisse coordenar toda aquela bagunça, minha parte foi feita durante os dias que passei por lá. – Olhava horrorizada para o médico que parecia ter lhe ofendido com aquela afirmação, sair de lá tinha sido sua atitude mais corajosa.
- E por que você não reclamou disso com o prefeito ou pra pessoa que comandava o lugar?
- Não é simples? É como quando você vê um amigo participar de um jogo, você olha e parece fácil. Até ri dele por ele não conseguir passar de fase. Como uma coisa tão simples ele consegue dificultar tanto com movimentos tão complexos?
Mas no momento que ele te desafia a jogar, você percebe que não é fácil. Exige algo que você não sabe definir o que é, luta pra passar de fase e nada... Era exigir demais que eu conseguisse chegar até o prefeito, passar de fase seria um mártir. Preferi continuar, apenas, a observar o jogo.
- Entendo. Acho que nesse jogo que você se encontra eu não tenho remédio pra lhe dar. – Observou o médico, entendendo o que realmente se passava.
- E o que eu faço com isso e isso? – Apontou novamente para o coração e a cabeça, só que com um toque de raiva.
- Quando dói? – Voltou para sua caneta e sua falsa anotação.
- Quando eu lembro a cabeça grita. Quando a cabeça grita o coração dói. Todo o tempo, constantemente. E não saí daqui, nem daqui. – Apontou novamente para o mesmo lugar, só que já sem forças a moça.
- Toma aqui um Lisador.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cuida de mim?

- Lembra o dia que você prometeu cuidar de mim? – Perguntou com aqueles olhinhos caídos e meigos que era uma das características mais marcantes dele.
-Lembro, claro que lembro! Por que essa pergunta agora? – Tirou os dedos que passava por entre os cabelos castanhos dele e o olhou espantada.
- Até quando você vai conseguir cumprir? – Mexia no zíper do bolso de forma agonizante com o olhar cabisbaixo. Ignorou a pergunta dela.
- Como assim? Eu não estou aqui com você agora? – Olhava com o coração apertado, como se o tivesse ferindo.
- Sim. Mas até quando? Ando te vendo aí meio em carne viva, recolhendo caquinhos... – Parecia se sentir culpado.
- Não, não é isso (Encheu o ar nos pulmões e continuou)... Eu vou sempre estar aqui quando você precisar. É só que (soltou o ar que preenchia o vazio que se encontrava a sua alma)... Eu também tenho meu lado frágil, posso passar toda essa segurança, mas no fundo sou uma boba carente que precisa de cuidados. Quero doar, mas também preciso receber. – Ela expressava vergonha no olhar.
- Eu entendo... (respirou fundo) Não sei o que dizer... – Tinha um tantinho de lágrimas nos pequenos olhinhos dele.
Segurou forte uma das mãos dele, com a outra mão passou seus dedos novamente por entre os fios do seu cabelo castanho.  Ergueu suavemente a cabeça dele, olhou fundo em seus olhos e disse:
- Não se preocupe, esse é o meu papel de doadora. Sempre foi. Vou ferida cuidar de você, mas vou. – Sorriu, assim de canto de boca, suavemente sem dor.
 - Mas... E se eu disser que quero mudar esse seu papel? – Aquele doce olhar dele se tornou decidido, como nunca antes ela tinha visto.  
- Como assim? – Era o olhar dela que se tornava confuso dessa vez.
- Eu quero, eu vou cuidar de você também, minha pequena.

“Cuida de mim, enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim, enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim, enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim, enquanto finjo... Enquanto fujo... “
O Teatro Mágico – Cuida de mim

domingo, 11 de setembro de 2011

O Celular

Um vento fresco e um sol do tipo que aquece o coração começavam a dar espaço para a lua tomar o seu lugar. Eles estavam deitados na grama em silêncio havia algumas horas.

Ela pressionava o celular como se quisesse ressuscitá-lo de alguma forma.

- Você vai quebrar seu celular o segurando com tanta força. – Ele observou e riu.

- Desculpa. Eu estou fazendo de novo, né? – Olhou cabisbaixa de forma arrependida.
- É. Você sabe que o visor do celular não vai piscar, que o celular não vai tocar a música especial dele avisando que ele tá te ligando. Ele não liga mais.
- Eu sei. Na verdade ele nunca ligou muito. Não se importava no auge do nosso “amor” (fez sinal de aspas com a mão) quem dirá agora que tudo retornou a estaca zero. – Olhou para a insignificante formiga que passava como se quisesse trocar o seu lugar com o dela.
- E você ainda continua aflita à espera dele... – Disse ele com ar de decepção.
- Sinto tanta raiva desse meu jeito. Que vontade de jogar esse maldito celular bem naquela árvore! – Disse ela, segurando o grito.
- Joga! – Alegrou-se ele.
- É mais forte que eu... Não consigo. Acho que nasci pra fazer esse papel da personagem que está sempre à espera, que sofre, que ama. Ama demais. Sempre mais.
Enquanto ela falava o celular piscou. Ele apontou em sinal de aviso.
- Aposto que é alguma propaganda. – Demonstrou desinteresse.

Clicou delicadamente em "ver mensagem".
“Você não é a única que ama sempre mais. Eu amo demais, você nem nota, sua boba.
Eu te amo !
Assinado: O cara deitado ao seu lado."

sábado, 10 de setembro de 2011

Sonhos, pior que aqueles.

 Foi perfeito, tudo certo. Certo demais.
 Era real, como desejava que realmente fosse. Podia sentir o calor, o cheiro e a voz. Aquela voz ao pé do ouvido dizendo “segredos de liquidificador". O cheiro que permanecia em mim por horas eternas. O calor que fazia enquanto lá fora nevava, afinal era só nosso.


 Foi tudo atirado como uma metralhadora de sentimentos em minha direção nesse sonho.
Como se dissesse, "Toma, menina! Esse foi seu presente, passado e o que poderia ter sido seu futuro. Engole, sua tonta!"


 E acordei chorando. Chorei por não ser real, chorei por você não estar ali naquele momento pra dizer que estava tudo bem, chorei pelo despertador ter me acordado, chorei por saber que não éramos “nós”. Era eu e você, assim separado. 

 Eu me sentia insignificante deitada naquela cama, enquanto lágrimas desciam pelo meu rosto. Me encolhi. Enxuguei aquele liquido, quase amargo, que dos meus olhos escorriam com a ajuda do travesseiro. A realidade me chamava. Só que eu não queria sair dali, porque doía. Doía muito. 

É tão cruel essa fantástica fábrica de sonhar.


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Citação : "Codinome Beija-Flor" - Cazuza


Ps: Sobre o título, quando digo "pior que aqueles" faço referência a um post de agosto entitulado "Aqueles Sonhos". Tenho preguiça e não estou craque em HTML ainda. Se tiverem curiosidade tá facinho de achar (:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Saudade

"A coisa. O que deixa tudo com cara de metade. O que coloca tres pontinhos na última palavra. A coisa que dói e consola simultaneamente, incessantemente. A paz mais triste. O inferno silencioso que ofusca os sons da rua. A coisa. As sobras dum passado. O prato principal da cabeça vazia. A coisa que faz sonhar um pesadelo suportável, mas que não termina quando desperta, porque nunca dorme. Nem morre. A coisa linda que eu quero esquecer. A coisa podre que eu só sei lembrar. A coisa essa que não dá pra alcançar com as mãos, mas vive do meu lado o tempo inteiro. A coisa que vê o que eu não enxergo. A coisa que fala o que ninguém ouve. A coisa que toca e não tem calor, mas arrepia o corpo todo. E que não pesa o lado da cama, mas dorme comigo toda noite. A coisa que existe sem querer. E que quer o que não existe mais. A coisa que quase não tem nome, não fosse a criatividade do brasileiro em inventar pra coisa, uma palavra: Saudade."

(Maria Paula Fraga)


Meu jeito saudoso de ser se apaixonou por isso. Minha alma que é pura saudade do que tive e não tive, gritou. Meu corpo que às vezes trepida de saudade se arrepiou. E todo esse conjunto entitulado "eu" recordou, reviveu nos pensamentos momentos. Lembrei de tudo e de todos, do nada e do tudo. É, senti saudade.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Distantes

- Tá doendo, né?
- É. Bastante.
- E agora?
- Não sei.
Alguns minutos de silêncio.
- Já pensou em voltar atrás?
- Nem cogitei essa possibilidade. Meu medo é fiel.
- Hum... Entendo.
- E você?
- Também não. Meu orgulho é fiel. Mas... Eu sei que dói... E muito.
Ele pensou em segurar a mão dela. Ela pensou em segurar a mão dele.
Continuaram distantes.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

A faca, o queijo e o coração.

A faca. O queijo. O coração.
Está tudo ali, ó. Em cima daquela mesa, bem pertinho de você. Nem precisa sair do seu ponto de conforto de tão perto que está.
Ei, moço! Quanta preguiça! Levanta!
Ah, não é preguiça? É medo!
Não se preocupe a faca está longe de te ferir, o queijo longe de te envenenar. E o coração? Muito, muito longe de te magoar.
Você tem todo o poder da faca em suas mãos. O queijo está todo picadinho pra você, nem precisa de esforço pra mastigar. Ah, querido, e o coração... Ah, o coração... Ele está todo dominado por você.

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Inspirado na música Flores do Mal - Barão Vermelho