quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Poeminha de uma quase vida

Nesse meu grito respirado se solta e se prende toda a dor.
Nesse suspiro sorriso se tranca toda ferida.
Nesse olhar claro se escurece todo o dia.
Nesse coração sangrento se seca a chuva ácida.
Nessas mãos eu guardo os leões matados a unha.
Nessas pernas eu seguro os guerreiros que me mantêm em sustentação.
Nessa vida se conserva o que de vida não há.



fonte da imagem: http://www.weheartit.com/

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Melancolia


 Eu tenho essa tendência a escrituras melancólicas. Eu busco aquela ponta da dor, eu acho com intensidade as cólicas da vida. E elas aparecem quase todo mês.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As cambalhotas e o castelo


 E de repente eu não estou podendo com essas cambalhotas que a vida tá curtindo brincar. Como uma criança com medo do giro, eu quero gritar e me jogar pra longe da rota das brincadeiras. Entrando num colapso de sentimentos, numa maré violenta de sensações. A minha torre tá perdendo a tintura e quase furando com as ondas poderosas que lavam o cercado do castelo. Pedi pros soldadinhos montarem um refúgio, enquanto ainda dava tempo, mas eles foram pegos pelas tranças rápidas de alguém lá em cima. Fiquei com alguns ao meu lado, mas preferi me esconder antes que eles vissem o meu quarto em ruínas. Dei minha própria cambalhota pra fora do castelo e sorri pra população não perceber a cidade se desmanchar. 

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domingo, 25 de dezembro de 2011

O que eu tô fazendo aqui embaixo?

"E, curiosamente, eu tenho a interrupta sensação de que o todo-poderoso adora brincar comigo. Na verdade, acho que ele faz isso com todo mundo. Não tem outra explicação pra tanta reviravolta num caminho. E a idéia de que ele sabe bem o que faz tem sido meio duvidosa por aqui. Ontem eu implorei pra Ele ajeitar a minha vida, e hoje Ele já começa a aprontar comigo. "OOO, psiu, se existe algum Deus aí em cima, será que Você poderia por favor perceber que eu tô tentando ser feliz por aqui?" E Ele ficou em silêncio. Ás vezes eu até esqueço o que eu tô fazendo aqui embaixo, e pelo visto, Ele também não lembra."

Maria Paula Fraga

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Guardando os pulsos


Um suspiro que fere a alma. Um líquido que escorre por entre os claros olhos, ofuscando-os. A respiração que corta delicadamente, como se cortasse o bolo de aniversário, o coração. O cérebro que maneja as lembranças do passado mais escondido para algum lugar no pensamento que deixe tudo em destaque, grifado. A alma ferida e carregando tijolos que não deviam estar ali se quebra, perde a luminosidade. O corpo que perde todo sossego, suplica por um descanso.  
E a menina respira mais um pouco. Por mais um dia, mais uma noite ou pelo menos mais um segundo. Fingindo uma coragem inexistente, fingindo uma força interior que nunca teve, fingindo a vida.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E um próspero ano novo


 O Universo vai colocar mais um tempo pra terra contornar todo o poderoso sol.
E serão pessoas desejando que a vida se renove, que tenha mais vida.
Serão milhões de pessoas pedindo aos deuses um tempo longe de tudo aquilo que impede o sorriso de se projetar em seus rostos.
Serão rezas. Será momento de fé. Será momento de esperança. Serão vários desejos. Serão pulos em sete ondas e lentilhas mastigadas.
Alguns pedirão que o tempo que vem nascendo seja melhor que o último que vai morrendo e se tornando lembrança, outros pedirão que esse tempo supere e seja tão luminoso como esse que vai apagando o brilho pra colocar o holofote sobre esse outro.
A meia noite bate e o tempo vira, vidas são lembradas, abraços são dados, o amor transborda em nossa mente e em nosso corpo. Nós vamos agradecendo, fazendo simpatias ou simplesmente buscando alguma crença. Uma evolução da nossa vida, da nossa alma. É espírito de renovação com o toque do antigo que permanece em nós, pedindo pra entrar. 
Então, se aprochegue em nossas esperanças novo ano que pede pra nascer!

Feliz ano novo 


fonte da imgem: http://weheartit.com/
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E como já era de se imaginar, eu vou agradecer. Obrigada pelas amizades mais que especiais que eu fiz esse ano. Obrigada aos beijos, aos abraços, as palavras, aos amores, aos sorrisos. Obrigada também a dor, que me acompanhou menos nesses meses. Mas, principalmente, obrigada as risadas, os risos mais sinceros, os momentos inesquecíveis, as almas que marcaram (e estão marcando) a minha vida da forma mais linda possível. Obrigada a um dos melhores anos da minha vida!!!
Que o próximo consiga superar ainda mais esse. E bora aproveitar os dias que faltam pra acabar esse ano \o/ 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Aproveite a sua laranja


 Não me julgue, que eu saiba quem responde pelos meus atos ainda sou eu, quem vai ter a cabeça na bandeja das regras sociais superiores sou eu. Me poupem de observar línguas se movendo sem parar. Línguas que salivam como a minha, que saboreiam coisas como a minha. Então, por que insiste em falar ? Meu erro não está aqui pra ser água que mata a sede da sua boca que se move. Se meu impulso aos seus olhos nebulosos foi imperfeito ou se minha atitude lhe pareceu invertida, não venha entornar em mim ou em órgãos alheios que captam seu som com falhas acústicas. Se sua boca ainda tem sede de buscar meus atos que não condizem com suas regras, primeiro mate sua sede chupando bem a laranja que te pertence e observe o bagaço podre que ela vai se tornando. 


fonte da imagem: http://weheartit.com/



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O título teve colaboração de um amigo. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Grifei Carpinejar

 "Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Sua boca não é rápida como suas pernas para me agarrar. Minhas pernas não são tão rápidas quanto minha boca para lhe impedir. Você foi covarde. Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo. Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhido. Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem morrer, o que desapareceu permanecendo perto. Sou seu constrangimento mais alegre. Sua ferida, seu feriado. Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala. Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento. Você foi covarde, ninguém iria compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor. Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido.Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia. Você me avisou que não tinha escolha. Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinho de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás. Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras. Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber. Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas. Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade. O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O dia está lento e não haverá movimento nas ruas. Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa. Você foi covarde. A mais bela covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais dolorida. O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim."

Por Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu sinalizo: Adiante!

 E mesmo quando o passado ainda ventava imagens nítidas na minha mente, sussurando pra dar passos pra trás, eu permaneci em frente, recolhendo minhas pedras. Porque eu não podia me esquecer que o que brilhou não era sol, era lâmpada que eu olhava como a mais ofuscante estrela. Por mais neblina que eu visse na estrada eu tinha que continuar, em frente, seguindo os bons. As placas não sinalizam nada, mas também não vejo faróis vermelhos pra me impedirem a ir avante. As curvas me deixam tonta e o passado me entorpece, mas, olha, no meio da neblina sinto uma brisa, ela é leve e me puxa. Ela dança por entre meu corpo, quase que me sinto flutuar. Em frente, recolhendo pétalas macias e leves, eu vou. Pedras, atirarei vocês no próximo lago da estrada. Preciso de leveza, o caminho é longo! Tchau, vou cambaleando, mas vou. Que delícia ir adiante, meu Deus!


fonte da imagem:  https://www.tumblr.com/

sábado, 26 de novembro de 2011

Não são simples palavras,


 
Fonte da imagem: http://weheartit.com/


 Elas são cortantes e muitas vezes não cicatrizam. Você não consegue desviar quando elas são jogadas aos moinhos que as trituram na sua mente. Trituram com um cuidado extremo, delicadamente, sílaba por sílaba, te enlouquecendo vagarosamente e acariciando cada pensamento seguido delas. Elas ecoam no abismo da sua alma e beliscam o seu coração. Elas doem. No silêncio elas ficam em negrito e sublinhadas na mente. Mas muitas vezes o pior são aquelas que saem de você, num súbito momento de impulsividade, porque essas queimam e apertam a sua alma e a de outro alguém. O sangue que escorre já não é mais só seu, a caneta dos seus lábios rabiscou a sua pele e não há borracha que apague essas pequenas letras unidas que você num ímpeto momento escreveu também em outro corpo. Você joga a palavra ‘desculpa’ como corretivo, mas muitas vezes essa já não tem mais o mesmo poder. Outras, você de forma desesperada para se livrar de agonias, tenta jogar palavras duras como dados na roleta da vida pra ver o resultado do jogo e no mix disso vira só mais um arrependimento de jogos de palavras. Mistura na sua alma a palavra ‘orgulho’ e finge esquecer o texto mau feito que escreveu num canto qualquer do papel do destino da sua vida.
Porém, tem algumas palavras que alguns suavemente jogam no mar da sua vida, outras vezes você também joga. Essas adocicam um pouco do mar tão salgado, causam uma calmaria e suavizam os cortes daquelas outras. Fazem seus lábios deixarem de ser caneta pra virarem sorriso.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tanto faz, tá no coração!


- Ele é um idiota. – Ela quase gritou.

- Mas isso você já sabia. – O amigo disse naturalmente.

E o tempo pareceu dar uma pausa pra ela pensar. Era só isso que ela sabia, né? Que ele era o idiota que ela amava. Mas porque ela amava mesmo? Quem era ele? Tudo que ela parecia conhecer eram pequenos borrões, reflexos da personalidade dele. E a história da vida dele? E as manias? Comidas preferidas? O que ele sonhava em ser quando era pequeno?
Nada. Ela o conhecia, sim. Conhecia o jeito dele abraçar ela, conhecia o jeito tímido que ele olhava pros olhos dela, conhecia muito bem aqueles olhos que a enlouqueciam e o jeito calmo que ele tocava seus ombros quando precisava ir embora.
E como fica o resto? Aquele resto que ela não sabia. Aquele resto que naquele momento pareciam ser a coisa mais importante pra ela. Aquele resto que era o resto do que eles não foram.

- É, isso eu sabia. Isso eu sei.  – A voz dela foi caindo. Enquanto, aqueles traços de interrogações só subiam e se desenhavam por entre a imagem tão nítida e certa dele que ainda permaneciam na sua cabeça.  E isso era certo, isso ela sabia, ele ainda tava lá dentro dela. Do coração dela.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Liberdade pra dentro da cabeça"

 Eu estou querendo jardins, mares e um pouco de terra. Quero desafios, estradas onde eu possa caminhar na contramão e correntezas que me joguem pra lá de onde a Lua encontra o Sol. E no caminho eu quero achar pessoas que me contem suas histórias, me dêem seus sorrisos, me mostrem suas fotos e digam o sentimento que cada uma delas representa. Vou me encontrar em vidas alheias, vou permitir me transformar mais um pouco com novas experiências e vou soltar a mão do medo.  Desejo ver um pouco além da redoma que a humanidade se prende, ver a vida de todos os ângulos, revirar gavetas do passado dos lugares por onde passar e desejo parar de vez em quando numa casinha só pra observar um pouco as estrelas. Na minha pequena maletinha estou levando o necessário e convites eu não faço, meus vôos são muito altos pra conseguirem me acompanhar. Se achar que tem habilidade, pode vir. Mas venha logo, tenho pressa. Continuar aterrizada já não é mais uma opção.
Estou indo buscar um pouco de ar, um pouco de som e muito de vida!





Deixa a autora  faniquitar um pouco
No meio do texto me veio à cabeça a frase de Richard Bach “Se desejas tanto a liberdade e a felicidade, não vês que ambas estão dentro de ti? Pensas que a tens e as terás. Age como se fossem tuas e serão.” E eu penso, isso tá dentro de nós, não precisamos ir “à caça”.
Porém, a frase de Miguel Cervantes também me chama a atenção “Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida.” E aí a gente pode levar pros dois lados, a “a liberdade física” de se aventurar por aí e a “liberdade interna” aquela que vem dentro de nós, se aventurando dentro do nosso próprio Eu. Mas uma coisa é certa: a liberdade não tem preço, a mera possibilidade de obtê-la já vale a pena (sábio Isaac Asimov), seja dentro ou fora de nós não vamos nos deixar aterrizar, combinado?!

                                                       Fonte da imagem : http://weheartit.com/

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Perdendo a direção


Peguei o carro pra dar uma volta, sem saber pra onde ia ou se seguia a direção certa. Apenas, peguei. Liguei o rádio na estação preferida e liguei o motor. No meio do caminho ouvi o som de uma música familiar, mas há tempos não ouvia e aquela estação não costumava tocar aquele tipo de som, me distrai de novo. Até que reconheci, ouvi aquele trecho que me fez parar o carro bruscamente numa rua qualquer.
 “Um minuto para o fim do mundo, toda sua vida em 60 segundos.”

 Só aquele trecho, o resto da letra não importava, era aquele que eu ouvi nitidamente. E um simples trecho me tocou, puxou meu coração pra fora do peito expondo ele no museu da vida, sugou a alma pra fora do corpo e os pensamentos jogou pro alto, pude senti-los bater no teto do carro e voar pela fresta da janela, sem rumo, bagunçados, soltos e confusos. No meio disso minha única reação foi desligar o som e apoiar a cabeça sobre o volante. Uni tudo que o trecho daquela melodia fez flutuar e lembrei. Lembrei daquele que não tava ali pra me segurar e cuidar de mim quando eu resolvi me jogar , lembrei daquela que eu achei que me daria colo quando eu deixasse de ser tão durona e lembrei daqueles outros que não estavam ali pra me fazerem rir. Toda minha vida em 60 segundos. No meio disso, escutei um leve barulhinho, era uma florzinha que caía sobre o pará-brisa, reparei que estava encostada debaixo de uma árvore que caíam flores amarelas sem parar. O asfalto e a calçada estavam cobertos com elas. Elas que tinham um amarelo tão vivo, tão pequeninas e delicadas eram atropeladas pelos carros que passavam e eram pisoteadas pelas pessoas que caminhavam pela calçada. Observei por um tempo a derrota delas que floresceram pra cair e serem esmagadas. Me identifiquei com as pequeninas frágeis flores. Uma menina que passava pegou uma delas, pelo menos uma delas vai ter mais uma chance, pensei. Voltei a cabeça pro volante, um choro varria as sujeiras do que restava a minha alma. Ouvi a voz da minha mãe ecoar “nunca imaginei te ver tão frágil assim...” e, na minha mente eu respondia “nem eu, mãe. Nem eu.” Voltei a lembrar da vida, lembrei daqueles, daquelas e daqueles outros. Lembrei das quedas, pisoteios, atropelamentos e eu caída nessa estrada sem fim sem nenhuma menina pra vir me salvar de ser esmagada mais uma vez. 


 Até que uma batida no vidro me assustou, era um homem que tentava chamar minha atenção:



- Tudo bem, moça? Tá precisando de alguma coisa?

- Huum...Tem uma poção de Cianureto, aí ? Estou com sede.

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fonte da imagem: http://weheartit.com/
Música: Um Minuto Para o Fim do Mundo - Composição: Wally e Rodrigo Koala


Nota da autora: Não é um texto autobiográfico, só pra deixar claro.


sábado, 12 de novembro de 2011

Ficou no tempo

- Você me abandonou.

- Não, não fui eu.

- Foi sim, você me deixou.

- Não, você que se foi pra longe... Nem sei onde se encontra.

- Eu nunca saí de perto de você e estou aqui agora!

- Não, esse que vive perto de mim e que eu vejo na minha frente agora não é aquele que eu “abandonei”, você não é o mesmo.

Enquanto ela falava, ele mantinha a expressão confusa em seu rosto. E ela continuou:

- Eu não sei mais quem é você, nem sei mais o que sinto por você. Sei que sinto saudades de vez em quando, mas não é dessa pessoa que falo agora e que vejo andando por aí. É de alguém que ficou no tempo da minha vida, alguém que ficou parado no relógio do meu destino, alguém que acho que nunca mais vou encontrar.

E ele não disse nada. Olhou pra ela, calado.

sábado, 5 de novembro de 2011

Como é bom saber de você

 Quando eu havia desistido você voltou. No dia mais estranho, num dia cheio de bagunças da minha vida, você retorna e organiza. E me deixa com o sorriso mais patético do mundo só por dizer que sua saudade era tão grande quanto a minha, me deixa feliz por saber que você continua com o mesmo espírito daquele menino que eu conheci.
E eu sorri, e eu chorei. Sorri por sentir você gritar a mesma saudade que já estava no topo da minha vida há três anos, chorei por me sentir responsável pela nossa separação mesmo sabendo que o destino que era o culpado. E minha vontade era pular dentro daquela tela de computador pra te abraçar até não ser mais possível eu sentir minha mente girar, queria poder olhar nos seus olhos pra você sentir minhas palavras mais sinceras e eu queria te olhar de pertinho só pra acreditar que não era mais uma trapaça da minha mente.
Mas o principal em tudo isso é que eu descobri que você tá bem. Obrigada destino, obrigada você por ter voltado pra me contar.

E eu finalizo esse texto com um grito ecoado via MSN:


QUANTA SAUDADE!


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Pra você entender melhor clica aqui 



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Se despindo da roupa de palhaça

 E lá estava ela em frente ao seu apartamento às 3 da manhã, gritando seu nome com vontade de gritar todas as agonias do amor por você mastigado repetidamente. Você desceu com o olhar paciente e com aqueles mesmos olhos caídos, olhou firme para ela sabendo o que vinha pela frente. Então, impaciente e desesperada, disse muito mais que cobras e lagartos pra você. Cuspiu com uma ácida saliva a enorme lagoa de sapos engolidos, mostrou a cabeça do leão que ela vinha tentando matar há meses e colocou na bandeja as linhas que ela utilizou para recosturar o coração depois de cada retalho mal feito por você. Sentado na beira da calçada, com o mesmo olhar e só olhando a cena, abaixou a cabeça como sinal de culpado e covarde. A rua parecia ecoar todas as agonias, faniquitos e dores representados em forma humana por ela. A luz que vinha do 5º andar refletia em cima dela, e isso já parecia ter se transformado em um espetáculo, da louca ela mudou para a mais nova palhaça do picadeiro vaiada pela platéia que vinha das moradias vizinhas. Mas o show tinha que continuar até que você abrisse sua boca pra admitir todo seu erro, toda sua covardia, toda sua falta de consideração por ela. Não, nenhuma palavra, só saiam de você olhares de desculpa. E ela que achava que você seria capaz de lhe dar um pouco mais além daqueles olhares, jogou a cabeça pra trás em sinal de desistência e depois de muito tempo te engolindo, ela te mastigou e cuspiu. Ela  que deixava sempre uma fresta da porta aberta pra você chegar quando quisesse, se despiu da roupa de palhaça e preferiu voltar a ser a louca impulsiva e independente, enquanto você só se tornou mais um covarde imaturo na lista do "não atender" do celular dela.
 E olha ela lá, a louca seguindo em frente e feliz. E olha você aí, buscando felicidade em garrafas de bar.






terça-feira, 1 de novembro de 2011

Espelho, espelho...EU!

Sentimento de completude, entendem? Você se sente bem sem precisar de mais ninguém, completa, você se basta e tudo de bom que há em sua vida é o que importa. Acordei essa manhã assim, apesar de todos os problemas e lembranças d’um passado que, mesmo tentando viver só o presente, ainda atormenta. E mesmo com os refúgios que ainda busco dentro de mim me senti bem, inteira. Todos os problemas continuavam aqui, mas estavam mais calmos dentro da minha alma, esses meus quilinhos no mundo não pareciam mais pesar tanto nos meus ombros e eu me senti mais iluminada.
Fiquei em frente ao espelho e não vi cacos de mim refletido nele e, muito menos, um sorriso semelhante a um quebra-cabeça incompleto. Vi nele a pintura da minha vida, a arte mais bem feita desses meus caminhos. As cores vibrantes que enxerguei ofuscaram o que foi tingido em preto e branco. Quanto tempo, hein mocinha? Faça-me o favor de não sumir mais! – Senti o espelho dizer. Sorri envergonhada e feliz. É, eu voltei, e se depender de mim...Agora é pra sempre! – Eu disse pra ele, quase prometendo.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

É aquela coisa

 Tem dias que eu sou todinha ela. No outro a engano e me torno mais eu. No instante seguinte ela me encontra e abraça meu coração com toda força, até espremer ele devagarzinho. Sabe se juntar com o cérebro e a alma também, e são nesses dias que ela faz isso que eu vou me encolhendo cuidadosamente. Me puxa pela perna, me joga no chão e me deixa ali, a beira da estrada pra ser novamente esmagada. Eu levanto, depois de algum tempo de desistência e finjo que nada aconteceu. Ela sorri pra mim de forma pueril, enquanto eu grito com ela. E, de vez em quando, eu aperto ela dentro de mim só pra ver se cabe algo que me complete mais. E como quem não quer nada, ela volta. E ficamos brincando. Ela de pega-pega, eu de esconde-esconde. Eu e a saudade.


Fonte da imagem: http://migre.me/anADz





sábado, 22 de outubro de 2011

Dois Planetas, um ponto.

Mais distante que Marte, mais frio que o gelo do ártico e as gotículas da chuva de inverno, escondendo mais coisas dentro de si que um baú de sete chaves. E já era, porque meu foguete não tem mais o mesmo motor pra alcançá-lo, meu fogo quase incendiário não consegue mais emitir nenhuma faísca e minha chave mestra apresenta defeitos. Me vejo apenas, querendo acabar com minhas agonias de ver tudo isso acontecer diante de mim e não conseguir entender o que se passa. Fica tranquila – ele disse pra mim, mas quase não deu pra ouvir aqui da Terra. Eu fiz algo errado? – perguntei quando, na verdade, queria dizer “Me diz o que tá acontecendo, preciso tanto cuidar de você!”. Mas não se ouviu mais nada, a distância dos nossos planetas já havia se expandido demais. Não foi nada, esquece. – Num breve sussurro eu escutei  a voz dele ecoar no espaço. E ao olhar para o céu vi um avião passar. Ao sumir pareceu desenhar um ponto, apenas um. É isso, desliguei o motor, não forcei mais nenhuma faísca e guardei a chave no bolso. Ponto.



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Nada mais que uma pateta

 A mais patética de todas as patéticas, é um sentimento aflorando nas últimas semanas. É aquele momento que sente raiva de você, só sabe falar sobre um assunto, não porque seja seu preferido ou porque te faz bem, mas sim porque é o único que você ignora avisos e que deixa dúvidas na sua mente. Todos os demais assuntos contendo suas opiniões e desejos estão formados, um dia quem sabe eles mudem, mas estão lá, intactos. Esse não, esse você não sabe se tudo isso é realmente real ou é só algum tipo de transformação aí dentro de você, se é tudo sentido com toda essa intensidade ou se, apenas, você que quer intensificá-los por alguma razão escondida no seu interior. Aí você chega e quer descobrir e desvendar tudo isso, e todos te dizem o que deve ser o melhor, ignora com a ajuda do bom e velho companheiro orgulho. Tal ato de repetir várias vezes o mesmo assunto, cansa até mesmo a própria pessoa que repete, imagina os demais, né? E, então, se sente, mais uma vez patética. A gata borralheira que não está a fim de admitir que perdeu mais uma vez o sapatinho de cristal e mordeu a maçã envenenada, só pra não engolir o orgulho de admitir que é tão frágil quanto as demais damas do reino. E é assim, ou algo assim. O trem tá chegando e a chuva continua a cair, o vestido já começa a desbotar, o que te resta é dar sinal pro próximo cavalo branco que passar antes que a chuva vire tempestade. O que tem a ver o cavalo nessa história? Ele vai te levar pra longe do reino, distante do seu velho assunto, e, se você repetir, pra ele não tem nada demais.

sábado, 15 de outubro de 2011

Fantasminhas camaradas?



Sabe as assombrações, os fantasmas que te perturbavam as noites quando você era criança? Chegava a hora de dormir e todo barulho ou imagem no meio do escuro te remetia a um possível fantasma. Você então, se cobria com o cobertor mais pesado, juntava ele por todo o seu corpo, sem deixar nem um espaçozinho sequer mesmo que estivesse o calor mais insuportável do mundo, depois disso cobria o seu rosto pra não ver nada caso seus olhos insistissem em abrir, quase se sufocava ou morria de calor, mas não importava, só não podia ver ou sentir um fantasma por ali. O medo era mais forte. Na noite seguinte o anúncio na TV era de um filme de terror, sua mãe dizia: “É bom você não assistir ou não vai conseguir dormir depois!”. Concordava, porém só da boca pra fora, porque era tão emocionante tudo aquilo que escondido ia assistir. E, mais uma vez, ignorando os avisos, aqueles medos voltavam. Depois de toda aquela proteção contra fantasmas o medo ainda voltava lá e seus olhos enchiam de lágrimas. “Por que eu não ouvi minha mãe?”, se perguntava até cair no sono. O problema que os fantasmas também vinham em pacotinhos chamados ‘pesadelos’, e, desses eram difíceis fugir. Mas no dia seguinte você já acordava corajoso de novo, podendo enfrentar qualquer fantasmas que viessem pela frente, eles não eram páreo para você. Sentia-se a Mulher-Maravilha até passar outro filme na TV e tudo se repetir, só que dessa vez você engolia a vergonha e ia dormir com seus pais. Não era assim?
Você cresceu, os fantasmas não te assustam tanto mais como antes. Mas aí aparecem outros fantasmas, outros monstros pra assombrarem suas noites. E esses são reais, tem nome e sobrenome, vêm em pacotinhos chamados ‘pesadelos’, mas, também vêm em pacotinhos chamados ‘realidade’. Os sons e imagens que eles produzem durante a noite são reais, são chamados de ‘lembrança’. O medo que eles te dão vem do seu coração que não sabe lidar com aquilo. E, mesmo assim, algo dentro de você ainda acha todo esse “filme de terror” tão emocionante como os de quando você era criança, e fica assim, permanente em você por mais que doa, porque no fundo ainda te faz bem, te faz feliz esse medinho, essa emoção. Você ainda foge, porque fantasmas são difíceis de capturar e, a essa altura, depois de tantos fantasmas te rondarem você não tem mais a força de uma super-heroína e muito menos a sabedoria de um Dalai Lama pra conseguir lidar com tudo isso. Mas deixar de assistir o filme também é difícil. Então, decidi continuar a repetir o ritual de quando era criança, se cobre, esconde a cabeça, as lágrimas surgem um pouquinho até tudo isso passar ou você cair no sono. A cama dos pais já não é uma possibilidade, te resta se agarrar um pouco no travesseiro.
 “Não assista esse filme de terror, ele não vai te deixar dormir.”, eu sei, mas o fantasma que aparece nele me faz tão bem, mãe.

Pairando

 Desnorteada e com o olhar distante ela andava pela rua, tinha os passos tortos como se estivesse embriagada.
Uma senhora que passava do outro lado da rua gritou: “Onde vai parar essa juventude, meu Deus?”
 Ela não ouvi. Assim como não ouvi o carro que buzinou ao quase atropelá-la, a freada brusca do carro de trás e o cachorro latir da casa pela qual passou. Também não sentiu em seus braços nus o vento gélido daquela quase madrugada, muito menos a boca ressecada e os olhos úmidos. Não enxergou os olhos espantados das poucas pessoas que cruzaram o seu caminho, nem percebeu que já estava quase na fronteira de outro município. As coisas que pensava já não sabia se ainda eram pensamentos ou se articulava algum tipo de palavra. Não sentia controle sobre seu corpo ou sua mente, não havia sentimento ou qualquer tipo de emoção. Já passara da meia-noite e muito antes disso ela já havia virado abóbora, uma abóbora amassada e estragada era isso que tinha se tornado.  Seu corpo exausto pediu arrego e ela caiu no meio da calçada. Olhando para o céu, sua mente, que ao contrário do seu corpo não parava, se alinhou e lembranças de um passado de meses que pareciam anos dentro dela se reuniram. Soltou um som estridente pela boca, junto com suas mãos que tocaram seu rosto. No momento que sua face sentiu o toque de suas frágeis mãos ela sentiu algo molhado, preferiu acreditar que eram mais uma vez as lágrimas de meses. Ali deitada, sentia a camisa grudar em seu corpo. Tateou os bolsos a procura do celular pra tentar lembrar o que tinha acontecido nas últimas horas. A última ligação: Senhor X.  O senhor que pairava em sua mente há meses, os encontros com ele que sempre deixavam algo no ar, tudo pairava. Vivia pairando, flutuando sobre eles. Só que tudo isso não iria mais acontecer. Ela olhou para suas mãos e para a camisa que grudava. Ela o matou. Ela viu o sangue, a camisa encharcada do liquido vermelho e as mãos com resquícios do crime. Pois, então, agora não pairaria mais e ela tinha em suas mãos o sangue dele. O sangue deles. E era só o primeiro dos muitos crimes que ela ainda cometeria.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Corte da corda

- Ele não é nada seu. 
Com toda sua inocente sinceridade ele disse isso como quem passa manteiga no pão pela manhã.
- Eu sei.
- Então, por que a aflição de ainda querer notícias e de querer saber o que se passa ao redor e dentro dele?
- É que ainda faz falta tudo que ele poderia ser... Tudo que poderíamos ser.  E acho que me preocupo com ele, comigo.
- Isso é carência sua.
Sua sinceridade era muitas vezes grosseira, mas era disso que ela precisava.
- Não, infelizmente não é. Já senti o calor de outros braços e já matei minha sede em outras bocas. E isso permanece. O frio na alma e o calor no coração ainda estão aqui.
- Foi você quem fez a escolha de retirar as reticências. É esse seu jeito impulsivo, impaciente e de querer ter certeza de tudo que estraga as coisas às vezes.
- Sinto raiva de mim também por isso. Você acha que fiz a escolha errada?
- Não, não sinta raiva de você. E você só fez o corte de algo que te afligia, você cortou a corda que machucava seus pulsos e te mantinha presa. O único problema foi que a corda deixou marcas, talvez você tenha deixado que ela se apertasse demais. Marcas não incomodam para sempre, fique tranquila, alguma hora você nem vai mais as notar aí.
- Então por que disse que esse meu jeito estraga tudo?
- Nem sei mais o que digo. É que, assim como você, cansei de ver o seu rímel escorrer pelas suas bochechas junto com esse líquido salgado dos seus olhos. E fico pensando, e se você fosse mais calma e deixasse o destino se encaminhar sem dar a mão pra ele. Mas depois repenso e penso, não sei se isso seria bom.
- Se você não sabe, imagine eu.
- Mas lembre-se: toda atitude vinda do coração, quando não se tem raiva nele, é bem-vinda.

Bateu delicadamente com a ponta do dedo na pontinha do nariz dela, sorriu levemente, piscou os olhos devagar. Todos esses sinais ela já sabia o que significavam: “Vai ficar tudo bem.”





terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tudo certo, não!


 Só, por favor, não me diga que dará tudo certo. Me diga que ficará tudo bem. Porque nem sempre dá tudo certo, nem sempre o que é certo pra você é o que é pra mim, e, eu não vou aguentar ver tudo se desmanchar. Mas, fica tudo bem... Sempre fica tudo bem.
Então, repete o mantra comigo : “vai ficar tudo bem.”.



...(só um pequeno pensamento da madrugada)...


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sábado, 1 de outubro de 2011

Vamos ser feliz agora?


Eu quero ser feliz agora - Oswaldo Montenegro




É, isso. Largue seus medos, persiga seus sonhos. Não deixe que decidam os seus caminhos por você, não permita que apaguem o seu brilho, não solte das suas mãos aqueles desejos só porque te disseram que você não pode "entrar nessa festa". Mostre que você sabe dançar e que nessa pista da vida você pode ser o melhor!
Se atire com os braços abertos, a vida não espera por você. Então, por que ter paciência de esperar por ela? "Se joga na primeira ousadia"!
Não se cale, grite. Você é capaz. Ouça seu coração e não deixe que seus medos ensurdeçam ele!
Tem um futuro que te adora, meu amor. Vamo, vamo, "olha pra vida e diz pra ela...
Eu quero ser feliz agora!"


(só um pequeno recadinho, quase que um lembrete pra eu mesma não me esquecer...quase um mantra...nada demais.)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Roteiro de um palco imperfeito

Eu tenho um roteiro, assim inteiro;
Escritos nas insônias de agosto, pressuposto;
Tem personagens esquecidos, ou eles que me esqueceram?
As falas não têm vírgulas ou travessões;
Têm reticências e palavras atravessadas, é emergência!
Clemência!
Deixe-me buscar nos meus arquivos as nossas falas;
Aqui está! Acompanhe-me;
 
Não, você está errando! Tenta essa palavra, essa frase
Ah, quase!
O que é isso? Está profanando?
Siga o que eu escrevi, vamos!
Nada de profetizar, pressentir;
Não quero improvisos, já aviso!
Apenas, muitos risos e sorrisos. Eu preciso!
Que tal pularmos pras cenas do próximo capítulo?
Isso, perfeito!

Ei, ei! Espere, não! O final... Desfeito.
Foi desfigurado, inacabado
Quanta falta de profissionalismo,
Devolva-me então, minhas páginas e meus rabiscos,
Vou pôr tudo ao lado dos cacos e destroços desse nosso palco;
Vambora,
sem roteiro, que a aurora não demora.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pessoas Escrotas Saem do Esgoto

Hipócritas de sorrisos amarelos rondam o seu castelo, cuidado;
As máscaras deles subverteram-se, inverteu-se, um ácido caiu sobre elas;
Aqueles que avançam e desmontam, o olhar macabro deles te cega;
Imutáveis sorrisos negros, edificados em lamento;
Maligno calor humano vindo de ventres banhados em veneno;
Babam temperos de angústia misturados com histórias falsificadas e revolvidas, cospem esgoto;
O veneno escorre e eu finjo não ver.
A carapuça serviu. E você hipócrita, obteve um caimento perfeito.
Continue aí, então, no seu leito... Insatisfeito!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Não é uma consulta qualquer

Entrou na sala do médico tão de mansinho que parecia quase voar.  Sua respiração era lenta, quase mórbida. Os olhos caídos e inchados.
Sentou lentamente na cadeira, esperou que o médico lhe perguntasse algo, não queria ser a primeira a pronunciar qualquer palavra. Não queria falar. Por ela ficaria calada para sempre, ou melhor, por que todos não se calavam para sempre?

O médico esperou que ela dissesse pelo menos seu nome, em vão.
- Então... Qual é o seu problema? – Pergunta óbvia que ele fazia para todos os pacientes soou tão entediante, quanto a cara da moça que estava a sua frente.
- Dói aqui. E aqui. – Apontou para o coração e para a cabeça.
- E quando isso começou? – Fingia anotar qualquer coisa, no final ia receitar um analgésico mesmo.
- Foi depois de uma viagem que eu fiz. – O liquido que lavava seus olhos há alguns dias estava voltando ao seu trajeto, a começar por aquele nó que ele dá na garganta antes de escorrer pelos olhos.
O médico pareceu se interessar um pouco pelo caso.
- Interessante. Para onde foi essa viagem? – Pela primeira vez olhava realmente para a moça.
- Não sei qual é o nome. Me levaram. Parecia interessante, percebi que era perigoso... Nem cheguei a ficar muito tempo, mas lembro muito bem de quando eu resolvi sair de lá. – Um olhar distante, como se estivesse fora do corpo estava estampado no rosto dela.
Ele estava começando a achar que teria que levá-la para a ala psiquiátrica.  
- E como era esse lugar? Por que você resolveu sair de lá? – Largou a caneta e sentou-se próximo a moça, extremamente interessado.
- Não, não. Dói. Não quero lembrar! – Apoiou sua cabeça entre as pernas.
- Ok, fique calma. Mas pelo menos me diga o motivo que a fez abandonar esse lugar. – Segurou a mão dela.
Afastou suas mãos da dele. Colocou um dos fios que caiam, atrás da orelha. Colocou suas pernas em cima da cadeira junto ao seu corpo, fechou os olhos e continuou.
- Era uma desordem, tudo muito confuso. Sabe aquela bagunça que fica após uma festa, com os pratos sujos, as bexigas murchas pelo chão, tudo fora do lugar que até parece que nunca mais voltará a ser organizado como antes? Aí você fica nervoso com tudo aquilo, a agonia de não dar conta te consome. Até que você percebe que precisa criar coragem e dar um jeito em tudo aquilo, antes que toda aquela desordem se agrave mais. Foi esse o motivo por eu abandoná-lo.

O liquido que havia estacionado em sua garganta, agora invadiu os olhos da moça pra virar uma fonte de coisas sujas a escorrer por entre seus olhos.
- Mas você não organizou, você abandonou. – Ele parecia perceber algo mais profundo vindo de toda aquela história.
- Não! Sair de lá foi uma forma de organizar. Sem mim ali, talvez, a pessoa que cuidasse do lugar conseguisse coordenar toda aquela bagunça, minha parte foi feita durante os dias que passei por lá. – Olhava horrorizada para o médico que parecia ter lhe ofendido com aquela afirmação, sair de lá tinha sido sua atitude mais corajosa.
- E por que você não reclamou disso com o prefeito ou pra pessoa que comandava o lugar?
- Não é simples? É como quando você vê um amigo participar de um jogo, você olha e parece fácil. Até ri dele por ele não conseguir passar de fase. Como uma coisa tão simples ele consegue dificultar tanto com movimentos tão complexos?
Mas no momento que ele te desafia a jogar, você percebe que não é fácil. Exige algo que você não sabe definir o que é, luta pra passar de fase e nada... Era exigir demais que eu conseguisse chegar até o prefeito, passar de fase seria um mártir. Preferi continuar, apenas, a observar o jogo.
- Entendo. Acho que nesse jogo que você se encontra eu não tenho remédio pra lhe dar. – Observou o médico, entendendo o que realmente se passava.
- E o que eu faço com isso e isso? – Apontou novamente para o coração e a cabeça, só que com um toque de raiva.
- Quando dói? – Voltou para sua caneta e sua falsa anotação.
- Quando eu lembro a cabeça grita. Quando a cabeça grita o coração dói. Todo o tempo, constantemente. E não saí daqui, nem daqui. – Apontou novamente para o mesmo lugar, só que já sem forças a moça.
- Toma aqui um Lisador.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Cuida de mim?

- Lembra o dia que você prometeu cuidar de mim? – Perguntou com aqueles olhinhos caídos e meigos que era uma das características mais marcantes dele.
-Lembro, claro que lembro! Por que essa pergunta agora? – Tirou os dedos que passava por entre os cabelos castanhos dele e o olhou espantada.
- Até quando você vai conseguir cumprir? – Mexia no zíper do bolso de forma agonizante com o olhar cabisbaixo. Ignorou a pergunta dela.
- Como assim? Eu não estou aqui com você agora? – Olhava com o coração apertado, como se o tivesse ferindo.
- Sim. Mas até quando? Ando te vendo aí meio em carne viva, recolhendo caquinhos... – Parecia se sentir culpado.
- Não, não é isso (Encheu o ar nos pulmões e continuou)... Eu vou sempre estar aqui quando você precisar. É só que (soltou o ar que preenchia o vazio que se encontrava a sua alma)... Eu também tenho meu lado frágil, posso passar toda essa segurança, mas no fundo sou uma boba carente que precisa de cuidados. Quero doar, mas também preciso receber. – Ela expressava vergonha no olhar.
- Eu entendo... (respirou fundo) Não sei o que dizer... – Tinha um tantinho de lágrimas nos pequenos olhinhos dele.
Segurou forte uma das mãos dele, com a outra mão passou seus dedos novamente por entre os fios do seu cabelo castanho.  Ergueu suavemente a cabeça dele, olhou fundo em seus olhos e disse:
- Não se preocupe, esse é o meu papel de doadora. Sempre foi. Vou ferida cuidar de você, mas vou. – Sorriu, assim de canto de boca, suavemente sem dor.
 - Mas... E se eu disser que quero mudar esse seu papel? – Aquele doce olhar dele se tornou decidido, como nunca antes ela tinha visto.  
- Como assim? – Era o olhar dela que se tornava confuso dessa vez.
- Eu quero, eu vou cuidar de você também, minha pequena.

“Cuida de mim, enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim, enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim, enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim, enquanto finjo... Enquanto fujo... “
O Teatro Mágico – Cuida de mim

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Não demore a ir embora, por favor.

No meio de todos estava a menina. Ela era como um espelho, refletia os sorrisos e as risadas, sem saber do que ria ou sorria. Mas, refletia o que via.
Por que não choravam? Ela queria que eles chorassem, assim ela poderia refletir a verdade escondida nela, desatar aquele nó que por alguns dias habitava sua garganta.
Mas, se chorassem significaria que estavam tristes, não é? Isso ela também não queria. Por isso sorria e ria.
Eles falavam, ela só ouvia ruídos. Doía.
Eles gesticulavam e olhavam pra ela. Doía.
Ela acompanhava os passos deles, ouvia barulhos ao redor. Doía.
Pensava nos sentimentos deles e se continha. Aconselhava. O que ela estava falando fazia sentido? Doía.
Sorria e ria. Doía.
Em casa desatou o nó. Teve a certeza, Ela voltou.

domingo, 11 de setembro de 2011

Estabelecimento


               Fonte da imagem: http://garagelollipop.blogspot.com/2011/01/bem-vindos-as.html


Nesse estabelecimento há muitas regras. E se prepare, porque a própria dona não é capaz de seguir todas.
Cautela. Isso que aconselho aos senhores.
 Em certos espaços a organização é imprescindível, em outros te diria “Cuidado onde pisa, não se sabe que tipo de material encontrará pelo chão. Ele pode te machucar.”
Ela cuida bem de quem entra, mas se você der motivos para ser expulso te garanto que ela não pensará duas vezes ao empurrá-lo para longe.
Tem um ótimo espaço, pode trazer sua bagagem.
Tem um espaço reservado, nesse ninguém ousou se arriscar a entrar. Todos têm medo de quebrar o que pode conter lá.
Tem uma fonte suja, não gosta dela, mas ela já estava lá quando o estabelecimento foi comprado. A reforma está em uma eterna construção.
Tem um armário de máscaras, o abre em caso de emergência. Poucos reconhecem as máscaras.
Ei, também tem festa todo dia com apresentação de palhaços e bailarinas.
Esses e outros espaços surpreendentes você encontrará.
Abra devagar a porta. Não deixe entreaberta. Escolha bem os móveis que for colocar lá.
Seja bem-vindo.

O Celular

Um vento fresco e um sol do tipo que aquece o coração começavam a dar espaço para a lua tomar o seu lugar. Eles estavam deitados na grama em silêncio havia algumas horas.

Ela pressionava o celular como se quisesse ressuscitá-lo de alguma forma.

- Você vai quebrar seu celular o segurando com tanta força. – Ele observou e riu.

- Desculpa. Eu estou fazendo de novo, né? – Olhou cabisbaixa de forma arrependida.
- É. Você sabe que o visor do celular não vai piscar, que o celular não vai tocar a música especial dele avisando que ele tá te ligando. Ele não liga mais.
- Eu sei. Na verdade ele nunca ligou muito. Não se importava no auge do nosso “amor” (fez sinal de aspas com a mão) quem dirá agora que tudo retornou a estaca zero. – Olhou para a insignificante formiga que passava como se quisesse trocar o seu lugar com o dela.
- E você ainda continua aflita à espera dele... – Disse ele com ar de decepção.
- Sinto tanta raiva desse meu jeito. Que vontade de jogar esse maldito celular bem naquela árvore! – Disse ela, segurando o grito.
- Joga! – Alegrou-se ele.
- É mais forte que eu... Não consigo. Acho que nasci pra fazer esse papel da personagem que está sempre à espera, que sofre, que ama. Ama demais. Sempre mais.
Enquanto ela falava o celular piscou. Ele apontou em sinal de aviso.
- Aposto que é alguma propaganda. – Demonstrou desinteresse.

Clicou delicadamente em "ver mensagem".
“Você não é a única que ama sempre mais. Eu amo demais, você nem nota, sua boba.
Eu te amo !
Assinado: O cara deitado ao seu lado."

sábado, 10 de setembro de 2011

Sonhos, pior que aqueles.

 Foi perfeito, tudo certo. Certo demais.
 Era real, como desejava que realmente fosse. Podia sentir o calor, o cheiro e a voz. Aquela voz ao pé do ouvido dizendo “segredos de liquidificador". O cheiro que permanecia em mim por horas eternas. O calor que fazia enquanto lá fora nevava, afinal era só nosso.


 Foi tudo atirado como uma metralhadora de sentimentos em minha direção nesse sonho.
Como se dissesse, "Toma, menina! Esse foi seu presente, passado e o que poderia ter sido seu futuro. Engole, sua tonta!"


 E acordei chorando. Chorei por não ser real, chorei por você não estar ali naquele momento pra dizer que estava tudo bem, chorei pelo despertador ter me acordado, chorei por saber que não éramos “nós”. Era eu e você, assim separado. 

 Eu me sentia insignificante deitada naquela cama, enquanto lágrimas desciam pelo meu rosto. Me encolhi. Enxuguei aquele liquido, quase amargo, que dos meus olhos escorriam com a ajuda do travesseiro. A realidade me chamava. Só que eu não queria sair dali, porque doía. Doía muito. 

É tão cruel essa fantástica fábrica de sonhar.


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Citação : "Codinome Beija-Flor" - Cazuza


Ps: Sobre o título, quando digo "pior que aqueles" faço referência a um post de agosto entitulado "Aqueles Sonhos". Tenho preguiça e não estou craque em HTML ainda. Se tiverem curiosidade tá facinho de achar (:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Saudade

"A coisa. O que deixa tudo com cara de metade. O que coloca tres pontinhos na última palavra. A coisa que dói e consola simultaneamente, incessantemente. A paz mais triste. O inferno silencioso que ofusca os sons da rua. A coisa. As sobras dum passado. O prato principal da cabeça vazia. A coisa que faz sonhar um pesadelo suportável, mas que não termina quando desperta, porque nunca dorme. Nem morre. A coisa linda que eu quero esquecer. A coisa podre que eu só sei lembrar. A coisa essa que não dá pra alcançar com as mãos, mas vive do meu lado o tempo inteiro. A coisa que vê o que eu não enxergo. A coisa que fala o que ninguém ouve. A coisa que toca e não tem calor, mas arrepia o corpo todo. E que não pesa o lado da cama, mas dorme comigo toda noite. A coisa que existe sem querer. E que quer o que não existe mais. A coisa que quase não tem nome, não fosse a criatividade do brasileiro em inventar pra coisa, uma palavra: Saudade."

(Maria Paula Fraga)


Meu jeito saudoso de ser se apaixonou por isso. Minha alma que é pura saudade do que tive e não tive, gritou. Meu corpo que às vezes trepida de saudade se arrepiou. E todo esse conjunto entitulado "eu" recordou, reviveu nos pensamentos momentos. Lembrei de tudo e de todos, do nada e do tudo. É, senti saudade.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Aposta

 A menina estava lá atrás do portão, em um canto em que ninguém a via. Largou tudo, as bonecas e as panelinhas. Escondia-se daquele homem que estava do outro lado da rua, era horrível. Ele possuía marcas por todo o corpo, como se o tivessem espancado por horas. Tinha também um sorriso assustador, um olhar de quem já roubou muitas vidas e mãos vermelhas como se resto de sangue estivesse penetrado nelas. O homem tragava alguma coisa que a menina não conseguia identificar o que era.
 Vontade de chorar consumia a pequena criança. Porém, mesmo sendo pequena e jovem, era muito corajosa e forte.
 Sua mãe chegou, viu a menina daquele jeito. Sem entender o que acontecia tentou balbuciar algo, a menina fez sinal para ela não falar e apontou para o homem. Ela olhava o lugar apontado. Não via nada. Mas via medo, muito medo no olhar da pequena.
Murmurou “Você não vê, mãe?”. Ela balançou a cabeça negativamente com olhar de carinho. A menina voltou seu olhar de novo, o homem havia desaparecido. Correu para dentro de casa assim que percebeu o perigo distante. Sua mãe acompanhou seus passos, não entendia o que acontecia, mas acompanhou mesmo assim.
 Estava estranha, nada a entusiasmava como antes. Desenvolveu um olhar triste. Um olhar que observava as coisas mais simples. Um sorriso teatral. Não era mais um sorriso de criança.
 Sua mãe, pai, irmãos, todos queriam fazer algo. Tudo em vão.
 Só ela enxergava o homem que por muitas vezes visitava aquela rua. Ria dela e ia embora. Voltava, jogava um olhar ameaçador e ia embora. Retornava, tragava um pouco daquilo que segurava, gargalhava e ia embora. Ele parecia gostar dessa brincadeira que fazia com a menina.
 Emocionalmente cansada. Fisicamente exausta. Ela lutava contra essa brincadeira dele. Isso a torturava de várias formas.
 Tarde ensolarada, um calor que não deixava os pensamentos fluírem tranquilamente. A menina resolveu tentar encarar a rua mais uma vez. E lá estava ele, rindo.
Disse para si mesma “Chegou a hora de encarar.”

 - Me diz, quem é você? – Disse ela com raiva no olhar.
- Sou aquilo que vai destruir e paralisar a sua vida – Disse o homem com um sorriso maquiavélico.
- O que causou essas marcas no seu corpo? – Perguntou intrigada.
- Elas foram causadas pelas pessoas que tentaram lutar contra mim. – Riu olhando para as marcas.
- E essa sua mão avermelhada? – A resposta dessa pergunta era a que mais a assustava.
- Esse é o resto de sangue que penetrou em minhas mãos das pessoas que desistiram de lutar contra mim. – Ele gargalhou.
- O que é isso que você vive tragando? – Perguntou receosa.
- Isso é um pedaço da sua alma – Ele gargalhou um pouco mais alto.
- Afinal, quem é você? – Questionou já com lágrimas nos olhos.
- Eu sou a dor! E agora farei parte da sua vida, como fiz com tantas outras pessoas. – A gargalhada ecoou por toda parte.
- Mas, eu deixarei muitas marcas em você! Vou lutar até o fim, nunca vou desistir. Vou fazer você desistir de mim, quer apostar? – Desafiou a pequena.
- Você vai perder. – Afirmou ele.
- Eu tenho muitos guerreiros que lutarão junto comigo e eles são tão fortes quanto eu. – Sorriu docemente.
- Mesmo assim sua vida nunca mais será a mesma. – Retrucou ele.
- Talvez, mas eu tentarei fazer dela a melhor possível. – Disse confiante.
- Se é assim que você quer, apostado. – Disse ele com um sorriso de quem parecia duvidar que estivesse fazendo a coisa certa, ela tinha uma coragem enorme no olhar.




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Distantes

- Tá doendo, né?
- É. Bastante.
- E agora?
- Não sei.
Alguns minutos de silêncio.
- Já pensou em voltar atrás?
- Nem cogitei essa possibilidade. Meu medo é fiel.
- Hum... Entendo.
- E você?
- Também não. Meu orgulho é fiel. Mas... Eu sei que dói... E muito.
Ele pensou em segurar a mão dela. Ela pensou em segurar a mão dele.
Continuaram distantes.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

A faca, o queijo e o coração.

A faca. O queijo. O coração.
Está tudo ali, ó. Em cima daquela mesa, bem pertinho de você. Nem precisa sair do seu ponto de conforto de tão perto que está.
Ei, moço! Quanta preguiça! Levanta!
Ah, não é preguiça? É medo!
Não se preocupe a faca está longe de te ferir, o queijo longe de te envenenar. E o coração? Muito, muito longe de te magoar.
Você tem todo o poder da faca em suas mãos. O queijo está todo picadinho pra você, nem precisa de esforço pra mastigar. Ah, querido, e o coração... Ah, o coração... Ele está todo dominado por você.

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Inspirado na música Flores do Mal - Barão Vermelho

domingo, 28 de agosto de 2011

A Porta

 A porta, de novo aquela porta. A chave dela vive pulando pra fora do bolso daquela moça, é tão escorregadia. E olha e encanta, e, é como se dissesse "Não me tranque de novo, por favor.".  A moça não resiste e reabre.

 Marcas de tanto que a moça chutou e a esmurrou de raiva por fazê-la brincar de abrir e fecha-lá são vistas sem muita dificuldade.

 Resolve então, como última tentativa, trancar a chave dentro de um cofre, e, como já era de se esperar, esqueçe o código que o abre. Logo, se lembra e abre de novo. É mais forte que ela.
 Empurrou e pressionou móveis para ela não abrir quando a chave começava a fraquejar.

Tudo, qualquer esforço que fazia, era em vão. Mas tudo isso já era de se esperar, afinal, tudo que rodeia a porta é torto, bagunçado. Era o destino dela ser imperfeita como todo o resto.

 No momento que se encontra ela está cansada, assim como a moça que tenta dominá-la. Está entreaberta, qualquer vento que sopre, qualquer movimento descuidado da moça..."BAM!" Se escancarará novamente.
É um ciclo meio vicioso, meio involuntário.


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Obs.: Já deve ser a segunda ou terceira postagem que falo sobre porta, não é? Então, vou fazer uma revelação...Rangidos de porta no meio da noite me assustam. Pronto, falei! Beijos ;*

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Mundo Dele


Tem um mundo só dele. Ninguém entra, ninguém invade. Tudo é encaixado como ele quer.
Desenhado de forma calculada, sem erros.

 Mas existe também o lado obscuro, aquela versão traidora de seu mundo. De repente vem o “lado negro da força”, aqueles seres que borram seu desenho, jogam água na tinta fresca que acaba de desenhar um belo arco-íris. O derrubam, bombardeiam e matam.
 Sombras caminham devagar em direção ao seu poderoso sol.
 Seu mundo! Como ousam invadir? Quem permitiu a passagem?
Os seres riem da destruição causada.
 Só não esperam o domínio dele, que volta repintando tudo, desenhando tudo novamente que foi destruído e de uma forma mais bonita do que era antes.
 Ela só observa aquilo, tenta entender , quer entrar nesse mundo, mas tem medo.
Prefere dar espaço a ele, então apenas continua a observar a perfeição do funcionamento de tudo aquilo. Se ele perder as forças e precisar de mais um guerreiro para a batalha, ela vai estar pronta, vai pintar e desenhar.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Não fique triste assim

Se refaça. Erga essa cabeça. Enxuga essas lágrimas, elas não combinam com a cor dos seus olhos. Aquele sorriso, sim, esse deixa seus olhos mais iluminados.
 Lembre que tudo passa e nada é pra sempre, o final feliz talvez até exista.
 Pode não existir o príncipe dos seus sonhos, mas quem precisa de perfeição? Coisas milimétricamente calculadas são tão chatas, as coisas que te surpreendem de várias formas são mais instigantes. Tudo que é perfeito uma hora cansa.
 E não se preocupe, a felicidade vai muito além da outra pessoa, vem de você.
 Esse não será seu último tombo, então vamos, levante!
 Saiba que eu estarei aqui sempre pra te ajudar. Por isso, por favor, não me decepcione.
Isso, muito bem! Esse sorriso, nada de lágrimas...

- Obrigada, mais uma vez, querida consciência.


“Que é que você tem?
Conta pra mim...
Não quero ver você triste assim
Não fique triste!
O mundo é bom; a felicidade até existe
Enxugue a lágrima, pare de chorar
Você vai ver que tudo vai passar
Você vai sorrir outra vez
Que mal alguém lhe fez?
Conta pra mim!
Não quero ver você triste assim...”  - Erasmo Carlos - Roberto Carlos


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Pesadelo

 O estacionamento estava lotado. Depois de cerca de quinze minutos rodando, Manuela achou uma vaga. Havia um carro antigo ali ao lado, o condutor estava saindo do carro no momento em que ela estacionou. Ele deveria ter cerca de trinta e cinco anos, barba mal feita, cabelo despenteado, aparência de quem não dormia há dias.
 Enfim, desceu do carro em direção ao supermercado, sua filha ao lado permanecia calada. Já tinha alguns dias que Ana andava estranha, mas não dizia a sua mãe, Manuela, o motivo.
 O motivo não era qualquer problema juvenil de uma menina de quinze anos, era algo assustador e inacreditável, então, ela continuava a esconder os pesadelos que se tornavam realidade. Quem iria acreditar nela?
Tinha certeza que a olhariam como um monstro.  Seu pai a expulsaria de casa, cético demais para acreditar em algo assim.  Só de comentar uma vez que acreditava em horóscopo, quase apanhou e ficou de castigo. Ele tinha medo que a enganassem, quando na verdade era mais fácil ela enganar os outros. Sua mãe talvez acreditasse, mas preferiu não arriscar.

Manuela comprou tudo que precisava, enquanto Ana parecia apenas uma sombra em torno dela, não balbuciava nenhuma palavra e não mudava de expressão. Quando saíram, foi Ana que reparou no homem que estava com o carro estacionado ao lado do delas. Estava encostado no carro, parecia esperar algo, na sua sacola havia apenas refrigerante e salgadinho. Ana passou por ele, seus olhares se cruzaram, ele parecia-lhe familiar.

 Quando a noite se aproximava, Ana começava a se angustiar, ia de um lado para o outro da casa. Mas, não tinha jeito, o sono vinha e fugir se tornava impossível. E como já acontecia há algumas semanas, o mesmo pesadelo retornava.
 No pesadelo ela assistia a morte de um homem, ele se matava e ela não podia fazer nada, um tiro na cabeça. Ela via tudo com uma enorme riqueza de detalhes. Ele se vestia com uma calça jeans rasgada, tênis com um pequeno furo ao lado esquerdo do pé direito, camisa listrada, verde e vermelha com uma mancha de molho do lado direito do peito. Mas, o que mais a assustava era o cenário, o estacionamento daquele supermercado. O rosto, ela ainda não conseguia ver.
 Sempre que Manuela precisava comprar algo, Ana estava pronta para ir, tinha esperança de impedir o suicídio. Sua mãe já estava percebendo algo muito errado, ela nunca tinha sido tão prestativa. E sempre que iam Ana encarava o homem da barba mal feita que sempre estava por ali, parecendo esperar algo como de costume.
 Mais uma semana com o pesadelo persistindo. Essa noite, algo mudou, ela viu o rosto dele. Sim, era o homem de barba mal feita.
 Na manhã seguinte, não tinha mais como fugir, ela contou tudo para sua mãe. E como ela já esperava, Manuela fingiu compreender e disse que devia ser apenas, coincidência.
Ana desistiu de convencer sua mãe.
 Domingo, três meses depois do dia que começaram os pesadelos constantes, foram a aquele supermercado. A última vez, elas nem imaginavam, quer dizer, Ana sabia que a qualquer momento seria a última vez que pisariam ali.
 Elas estavam indo embora, o homem dessa vez estava sentado no banco do passageiro com todas aquelas descrições, a calça, o furo no tênis a mancha na camisa listrada, mas, sua mãe não aceitou ficar mais um pouco por ali e a arrastou com ela. Saíram da vaga quando, Ana, olhou para trás e o viu abrir a porta, pegar a arma e se levantar.
 Ela pulou do carro ainda em movimento, sua mãe freio na hora. Ela corria como nunca antes, mas quando achou que conseguiria impedir ele disparou. O disparo parecia ecoar por todo o corpo dela. Ajoelhou-se ao lado dele, o sangue escorria próximo ao corpo dela. O olhar dele cruzou com o dela pela última vez.
 Ana chorava. Porque sonhou com aquilo se não pôde impedir? Questionava-se.
Manuela olhava com uma expressão indecifrável para ela.
 Uma mulher saiu chorando do supermercado, e, apenas, disse: “Como eu imaginava, ele esperava por ela. Mas, ela não poderia mais voltar pra ele, então, ele voltou pra ela.” Respirou fundo e completou: “Você se parece tanto com ela, menina.”


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Fonte imagem:
http://justicanahoradofim.wordpress.com/category/e-suicidio/